quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Do outro lado do teto de vidro, um penhasco de vidro

Mulheres em cargos de liderança são  julgadas com mais rigor do que os homens, porque as pessoas são mais severas com as mulheres? Ou simplemente  é porque mulheres são piores na liderança que os homens? Ou será que as pessoas estão sob maior escrutínio quando tomam os trabalhos que são geralmente realizadas pelo sexo oposto? Um novo estudo da Yale University’s School of Management sugere que pode ser a última.
Victoria Brescoll, professora  assistente de comportamento organizacional, é especializada em estudar o efeito que os estereótipos têm na percepção do papel da pessoa dentro de uma organização ou corporação. “Havia tanta conversa sobre as barreiras de raça e gênero a serem quebradas”, disse ela, ‘que queria saber  quão bem estavam as pessoas que chegaram do outro lado, depois que conseguiram rompê-las. E normalmente ficam bem, quer dizer, não tão bem.” (More on Time.com: Are Women Less Competitive Than Men?)
A posição difícil dos que quebram o teto de vidro é que frequentemente se vêem colocados  á beira de um precipício de vidro, uma hipótese levantada por dois professores britânicos em 2004. Ele sugere que as mulheres após romper o teto de vidro, são abandonadas em um precipício invisível – em uma posição de alto risco. Um passo errado e elas caem no abismo do fracasso profissional.

Atualmente, com mulheres bem sucedidas em campanhas eleitorais e dominando o ensino superior, parece que os estereótipos estão caindo como carrinhos de fruta em um velho filme de perseguição de carro. Mas isso não significa que os estereótipos  ainda não exercem alguma influência sobre as expectativas das pessoas. E são essas expectativas estereotipadas que podem levar as pessoas a julgarem mulheres que ocupam postos de trabalho tradicionais dos homens (ou homens com empregos tradicionais das mulheres) com mais rigor quando falham. “Os estereótipos prosperam na ambigüidade”, disse Brescoll no estudo, publicado na revista Psychological Science. “Erros criam  ambíguidades  e põe em cheque a competência do líder em questão, que, por sua vez, leva a uma perda de status.” (More on Time.com: Explaining the Complicated Women + Math Formula)
Então foram criados cenários em que pessoas de igual capacidade  trabalhavam  em empregos  tipicamente dominados pelo sexo oposto (como um chefe de polícia mulher ou um homem presidente de uma faculdade feminina) e e onde lidaram mal com crises. Os cenários descreviam o chefe de polícia ou o presidente da faculdade falhando em mandar policiais suficientes ou oficiais de segurança do campus não sabendo lidar com um protesto.  (Em alguns cenários, no entanto, seguindo a tradição, o chefe de polícia era homem e o presidente da faculdade feminina era mulher). (More on Time.com: The State of the American Woman).
Os pesquisadores pediram que 200 pessoas lêssem os cenários. Quando solicitado a julgar o líder que cometeu o erro não muito significativo, os voluntários do estudo disseram coisas piores sobre a pessoa que era do sexo não-típico: o presidente da faculdade feminina e a chefe de polícia. Eles foram julgados com mais rigor do que as pessoas que fizeram os mesmos erros, mas que eram do sexo usual para o trabalho.

Esta diferença de gênero se verificou  quando as tarefas envolvidas eram executada por CEOs de companhias aeroespaciais ou juízes também. Temos a tendência de ampliar os erros de pessoas que achamos que não sabem como fazer o trabalho.

O estudo de Brescoll foi com  pessoas em empregos de status elevado, mas um fenômeno semelhante pode estar em jogo em ocupações de menor qualificação também. Uma história recente no New York Times Motherlode blog detalhou como babás jovens do sexo masculino encontram-se frequentemente em desvantagem, em parte porque todo mundo se pergunta por que um jovem iria querer cuidar de crianças, e em seguida, temem que ele faça o pior. (More on Time.com: Another Clue to the Scarcity of Women Executives)
Se por um lado, é um pouco melhor saber que o preconceito não é apenas dirigido às mulheres, mas “impulsionado por reações aos indivíduos em funções incompatíveis com seu sexo”, como o estudo diz.

Por outro lado, não é uma boa notícia. “Embora as mulheres e as minorias tenham tido progressos para alcançar posições de alto status”, dizem os autores, “o presente estudo chama a atenção para uma tendência perturbadora que pode facilmente prejudicar essas conquistas.”

Em outras palavras, do mesmo jeito que as coisas chegam em um ponto, elas ainda tem um caminho a percorrer.

http://healthland.time.com/2010/12/08/after-the-glass-ceiling-the-glass-cliff/

Na minha opinião, esta pesquisa demonstra que os preconceitos ainda são por causa do questão do gênero. Na verdade estão na origem dos resultados da pesquisa,  porque se não existissem esses papéis generificados , se as mulheres não sofressem preconceitos por exercê-los quando estão em funções ditas masculinas, homens não seriam motivo de preconceito por outro lado.

Fonte Amazonas e Icamiabas

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Com a Mamãe e Papai Noel Construções sociais dos pais na atualidade.



Por José Carlos Sturza de Moraes(*)

Construções sociais dos pais na atualidade.

Com a chegada do final do ano, das festas natalinas e de ano novo, muitos de nós fazemos balanços existenciais. Do que conquistamos e do que queremos para o próximo período. Nossa sociedade se move assim, criando ritmos e modos de viver que parecem naturais, mas que são socialmente construídos. Anos atrás, Martha Medeiros, colunista do jornal Zero Hora, de Porto Alegre/RS, escreveu um texto intitulado Mamãe Noel, onde afirma que Papai Noel não existe porque é homem.

Em Mamãe Noel, Martha, com muito bom humor, retoma a lógica da mulher que conhece brinquedos e lojas e do homem que nem comprar suas meias sabe. O texto é super interessante para as mulheres. Faz-nos rir, inclusive homens, pelo talento de Martha e pelo senso comum impregnado em nossa consciência individual, coletivamente construída. Porém, tenho que discordar de Martha, Papai Noel existe. Ou melhor: momentos como o do Natal são possíveis também porque homens se colocam a tarefa de Noel. Homens também conhecem a Polly, o Max Steel, a Turma da Mônica, e até sabem comprar suas meias.

Aprofundando um pouco mais, entre 1993 e 2007 cresceu em mais de 30% o número de lares classificados como “homens com filhos”, representando 3% do total de famílias brasileiras. Embora, esmagadoramente, sejam as mulheres as responsáveis únicas, cresce também a participação de homens cuidadores tanto individualmente quanto em parceria com a mulher e não só para comprar, mas para levar à pracinha, dar banho, ir à escola e ao médico, etc. O lugar de única capaz do cuidado, inclusive daqueles simbólicos (do universo dos sonhos e desejos), tragicamente é também o lugar da mulher sobrecarregada com o fardo de cuidar dos outros e pouco de si.

Uma contradição já tantas vezes estudada, discutida, e que persiste. E, por outro lado, o do homem como desajeitado, que não sabe cuidar ou, pior, em quem não se pode confiar para o cuidado com crianças, especialmente se pequenas ou meninas, é também trágico: é o da construção da ausência paterna (do pai que não está ou do que está e não se faz presente). Ambas construções, da mulher super (mãe, cuidadora, sábia em relação a criação de filhos) e do homem pouco (pai, cuidador, sábio...) por serem culturalmente construídas, felizmente, podem ser questionadas.

Talvez um exercício interessante neste final de ano seja pensarmos um pouco sobre o quanto realmente nossa mãe, nosso pai, companheiro ou companheira realmente está ausente ou presente e no quanto sabe-faz cuidar de nós mesmos/as e de nossos/as filhos/as. Assim como o quanto deixamos e ajudamos que algo mude ou continue acontecendo.

* José Carlos Sturza de Moraes é cientista social, professor da Escola Técnica José César de Mesquita. Co-autor do livro 'Conselhos Tutelares, impasses e desafios - A experiência de Porto Alegre'

(Envolverde/Pauta Social)

Faleceu a professora e pesquisadora feminista Heleieth Saffioti

Aos 76 anos, faleceu ontem, 13/12/2010, a professora Heleieth Saffioti, professora, pesquisadora e autora de livros sobre a situação das mulheres, incluindo "Gênero, patriarcado, violência" pela EFPA, em 2004 (o livro está esgotado e terá uma segunda reimpressão (atualizada segundo o novo acordo ortográfico) logo nos primeiros meses de 2011.


Nota de Tatau Godinho* sobre a professora Heleieth

Heleieth Saffioti é conhecida internacionalmente como uma das mais importantes pesquisadoras feministas do país. Seus estudos sobre a situação das mulheres no mercado de trabalho no Brasil, desde a década de 1960, são pioneiros na análise sobre as desigualdades entre mulheres e homens, as diversas formas de opressão e exploração no trabalho. Professora de Sociologia, aposentada, da UNESP, e do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP, nos últimos anos dedicou-se também ao estudo sobre a violência sexista, acompanhando de perto o problema no Brasil, com abordagem teórica sobre a violência de gênero e análise sobre as políticas públicas nessa área. Em sua homenagem, a instituição que desenvolve a política de apoio às mulheres vítimas de violência na cidade de Araraquara, inaugurado pela prefeitura em 2001, foi chamado Centro de Referência da Mulher “Heleieth Saffioti”.
Sempre identificada com posições de esquerda e progressistas, e sem temer a polêmica que as temáticas feministas costumam provocar, Heleith buscou compreender os mecanismos profundos da exploração das mulheres no capitalismo, insistindo com veemência na relação estrutural entre capitalismo, patriarcado e racismo. Sem abrir mão de suas convicções e com sólida formação acadêmica, Heleieth renovava em suas análises as referências teóricas marxistas e a elaboração dos estudos feministas. Como ela sempre dizia, o nó que amarra classe, gênero e raça constroi as dinâmicas de desigualdade na sociedade contemporânea.
Autora de mais de 12 livros sobre a situação das mulheres, estudos sobre gênero e teoria feminista, sua produção é uma contribuição indispensável para a sociologia brasileira. Sem medo de ser considerada uma defensora radical dos direitos das mulheres, a intelectual, pesquisadora e militante feminista, professora Heleieth Iara Bongiovani Saffioti é uma referência obrigatória na história da luta das mulheres no Brasil.

* Tatau Godinho, socióloga, militante do movimento de mulheres e integrante do Conselho Curador da Fundação Perseu Abramo

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

25 de Novembro: Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher

A data de 25 de Novembro foi estabelecida no Primeiro Encontro Feminista Latino-americano e do Caribe realizado em Bogotá, Colômbia, em 1981, em homenagem às irmãs Mirabal.

Las Mariposas, como eram conhecidas as irmãs Mirabal – Patria, Minerva e Maria Teresa – foram brutalmente assassinadas pelo ditador Trujillo em 25 de novembro de 1960 na República Dominicana. Neste dia, as três irmãs regressavam de Puerto Plata, onde seus maridos se encontravam presos. Elas
foram detidas na estrada e foram assassinadas por agentes do governo militar. A ditadura tirânica simulou um acidente.

Minerva e Maria Teresa foram presas por diversas vezes no período de 1949 a 1960. Minerva usava o codinome “Mariposa” no exercício de sua militância política clandestina. Este horroroso assassinato provocou a repulsa da comunidade nacional e internacional, em relação ao governo dominicano, e
acelerou a queda do ditador Rafael Leônidas Trujillo.

Em nosso país a violência contra a mulher é constante. Uma em cada cinco brasileiras declara espontaneamente já ter sofrido algum tipo de violência por parte de um homem. A cada 15 segundos uma mulher é espancada por um homem no Brasil, num total de cerca de 2 milhões por ano.

Essa violência atinge todas as mulheres, todas as etnias, mas é mais nítida nas mulheres trabalhadoras e jovens, especialmente as negras. No Rio de Janeiro, em pesquisa o “Dossiê Mulher 2010” mostra que as mulheres pretas e pardas (negras, na categoria do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) são a maioria entre as vítimas de homicídio doloso, aquele em que há intenção de matar (55,2%), tentativa de homicídio (51%), lesão corporal (52,1%), além de estupro e atentado violento ao pudor (54%). As brancas só eram maioria nos crimes de ameaça (50,2%).

Estatísticas da violência

Ainda segundo o dossiê, em 2008, 20.216 mulheres sofreram ameaças, e, em 2009, esse mesmo índice saltou para 24.310. Em se tratando de lesãocorporal, o ano de 2008 registrou 26.876 casos no Rio. Já em 2009, foram 30.103 casos. Os dados indicam também que o Rio é o terceiro estado com o maior número de agressões à mulher em todo o país. Perde para o Estado de São Paulo, com 47.107 casos, e a Bahia, com 32.358. E somente 2% dos agressores são punidos.

Esses dados mostram que a Lei Maria da Penha não tem sido eficaz.  Apresenta inúmeras falhas e são necessárias a construção de casas-abrigos e de passagem, atendimento jurídico e psicológico às vítimas de violência, rápida e efetiva proteção a todas as mulheres que denunciam seus agressores.



Precisamos também de creches, salários e empregos dignos!

Fonte: informe  APN - Agência Petroleira de Notícias - SINDIPETRO-RJ

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Políticas para mulheres e mulheres na política

Em entrevista à Carta Capital a cientista social Tatau Godinho faz uma análise da situação da mulher na política, fala sobre desigualdade de gêneros e da postura da oposição diante de uma mulher na presidência.

Texto completo

Fonte-CLAM

Violencia contra Mulher: Quebre este círculo

 Este novo site entra como uma das ferramentas disponiveis para o enfrentamento da violência contra mulher. Acesse http://www.quebreociclo.com.br/

Saiba mais sobre a participação das mulheres na política

Carlota Queiroz foi a primeira deputada federal eleita no Brasil.

Lucas Kodama Seco, professor de história do Anglo, dá uma aula sobre a participação das mulheres na política.
A primeira mulher eleita deputada federal na história do Brasil, em 1933, foi Carlota Queiroz. Ao longo da segunda metade do século 20, a luta das mulheres por direitos e igualdade passa a ser maior.
No Brasil, a eleição de Dilma Roussef neste ano é um marco importante, independente de questões partidárias. Do ponto de vista histórico, a eleição dela tem um grande peso simbólico, segundo Kodama.


Assista à aula em vídeo.





fonte:G1

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Ética, Valores e Saúde na Escola




Fonte IPTV USP

Bullying

Video sobre Bullying orientações para professores e alunos.



Fonte IPTV Usp

Violência e Diagnosticos na Escola: de que violência estamos falando?

Vídeo interessante da Profa. Flávia Schieling para refletirmos e atuarmos mais em relação as situações de violência.







Fonte: IPTV USP

Vídeo Usp Diversidade e Pluralidade na escola

Nesta semana que  trabalhamos mais intensamente as questões raciais segue uma dica de video aula da Prof. Dan iele Kowalewski.

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Para ir direto ao vídeoclique  aqui

Fonte: IPTV USP

Treinando a Cidadania e a Democracia

Um exemplo de assembleia e de exercício da cidadania em sala de aula.


Vejam o vídeo neste link

http://www.iptv.usp.br:80/portal/Id.do?instance=0&id=uspK9IHNPNKDLusJUPVZISs3R0pjvEVNE8GJRXlxTYmv2U.&type=video

Fonte: IPTV USP

CNJ afasta juiz de MG que chamou Lei Maria da Penha de "conjunto de regras diabólicas"

Folha.com  por FELIPE SELIGMAN
DE BRASÍLIA

O CNJ (Conselho Nacional de Justiça) decidiu nesta terça-feira afastar por pelo menos dois anos um juiz de Sete Lagoas (MG) que, em 2007, considerou inconstitucional a Lei Maria da Penha em diversas ações contra homens que agrediram suas companheiras, alegando ver na legislação "um conjunto de regras diabólicas" e dizendo que "a desgraça humana começou por causa da mulher".

Por 9 votos a 6, o conselho decretou a disponibilidade de Edilson Rumbelsperger Rodrigues, pena prevista na Lei Orgânica da Magistratura, que considera "grave" a atitude de um magistrado, mas não o suficiente para levar a aposentadoria compulsória.
Durante o período, ele receberá salário proporcional ao tempo de serviço e poderá pleitear a volta ao trabalho após dois anos de afastamento. A maioria dos conselheiros seguiu o relator, Marcelo Neves, ao entender que Rodrigues deveria ser afastado por usar em suas decisões uma linguagem discriminatória e preconceituosa.
Em sua defesa, o magistrado afirmou em uma nota divulgada no início do processo, que não ofendeu ninguém, apenas se posicionou contra a legislação "em tese".
A divergência foi proposta pela conselheira Eliana Calmon, que propôs uma censura ao juiz, com a aplicação de um exame de sanidade mental, ideia que não prevaleceu.
A Lei Maria da Penha (nº 11.340) é considerada um marco na defesa da mulher contra a violência doméstica. Sancionada em agosto de 2006, a legislação aumentou o rigor nas penas para agressões contra a mulher no lar, além de fornecer instrumentos para ajudar a coibir esse tipo de violência.
Seu nome é uma homenagem à biofarmacêutica Maria da Penha Maia, agredida seguidamente pelo marido. Após duas tentativas de assassinato em 1983, ela ficou paraplégica. O marido, Marco Antonio Herredia, só foi preso após 19 anos de julgamento e passou apenas dois anos em regime fechado.
Em uma das sentenças proferidas por Edilson Rodrigues, porém, a lei é chamada de "monstrengo tinhoso", seguida das seguintes considerações: "Para não se ver eventualmente envolvido nas armadilhas dessa lei absurda, o homem terá de se manter tolo, mole, no sentido de se ver na contingência de ter de ceder facilmente às pressões."
Ele também afirma que "a vingar esse conjunto de regras diabólicas, a família estará em perigo, como inclusive já está: desfacelada, os filhos sem regras, porque sem pais; o homem subjugado".
E conclui: "Ora, a desgraça humana começou no Éden: por causa da mulher, todos nós sabemos, mas também em virtude da ingenuidade, da tolice e da fragilidade emocional do homem (...) O mundo é masculino! A ideia que temos de Deus é masculina! Jesus foi homem!".

Fonte: Folha.com

Sim, elas podem. Podem?

Letícia Sorg - revista Época


A eleição de Dilma Rousseff pode incentivar mais mulheres a seguir a carreira política. Mas o caminho do poder ainda é muito mais difícil para elas


Lorena Mendes Resende, uma estudante de 13 anos, ficou surpresa ao saber que Dilma Rousseff será a primeira mulher a assumir a Presidência na história do país. "Achei que já tivéssemos tido outra presidenta no passado", diz Lorena, que cursa o 7º ano do ensino fundamental no Centro de Educação Nery Lacerda, em Sobradinho, cidade-satélite de Brasília. Lorena também não notou que apenas uma em cada dez congressistas brasileiros é mulher quando, no dia 22 de outubro, esteve na Câmara dos Deputados para apresentar seu projeto de lei. Escolhidas pelo Plenarinho - uma iniciativa da Câmara para estimular a participação política de crianças -, Lorena e outras três estudantes brasileiras apresentaram propostas para um plenário ocupado por crianças de ambos os sexos. A sessão foi presidida por uma garota.
Lorena representa uma nova geração, para quem não haverá mais nada de extraordinário em uma mulher presidente. E talvez Dilma sirva de modelo para ela e outras meninas. Lorena já mostra um interesse acima da média pela política. Foi eleita representante de classe pelos colegas e recebeu o maior número de votos entre os 15 candidatos, pelo Partido Político Mirim dos Alunos (PPMA), em uma eleição simulada na escola. O projeto de Lorena no Plenarinho foi aprovado pelos deputados mirins e está à espera de um padrinho para levá-lo à Câmara "adulta". Nele, a estudante pedia a instalação de assentos especiais para garantir a segurança das crianças no transporte público. Ela notou o problema ao andar de ônibus com sua mãe e a irmã, que tem 4 anos. "Agora, tudo o que vejo de errado me faz pensar em criar um projeto de lei", afirma Lorena.
"Com a eleição de uma mulher, as garotas passam a considerar a política como uma opção viável de carreira", diz Mark P. Jones, professor do Departamento de Ciência Política da Rice University, em Houston, no Texas. "No Chile, a eleição de Michelle Bachelet (leia a entrevista com a ex-presidente) teve um forte efeito sobre como as mulheres, particularmente as mais jovens, viam a política e participavam dela. Podemos ver algo parecido acontecer no Brasil", afirma Jones, coautor do livro Women in executive power: a global overview (Mulheres no poder executivo: uma visão global) , que será lançado no início do ano que vem.
Pelo menos na base do caminho para a política, a escola, meninos e meninas começam em igualdade de condições. "O sistema educacional hoje é igualitário", diz Ilene Lang, da Catalyst, organização sem fins lucrativos que incentiva a participação de mulheres no mercado de trabalho em vários lugares do mundo. "As mulheres só começam a ver as barreiras a seu crescimento depois de alguns anos de carreira." É o que os especialistas chamam de "teto de vidro" - as barreiras invisíveis que impedem o avanço na carreira. A vitória de Dilma ajuda a abrir um buraco nesse teto - na cabeça das mulheres e também dos homens. "É um avanço importante para que eles vejam as mulheres como iguais", afirma Karen Kampwirth, autora do livro Gender and populism in Latin America: passionate politics (Gênero e populismo na América Latina: política passional) e professora de ciências políticas do Knox College, em Illinois.
Certa vez, uma deputada teve uma crise epilética no plenário. "É um chilique!", disse um colega homem
Hoje, as mulheres representam quase metade da população economicamente ativa do país e são maioria nas universidades. Mas ainda ganham, em média, 40% menos do que os homens, segundo dados do Fórum Econômico Mundial, e são minoria no topo da hierarquia corporativa: de 61 empresas que compõem o índice da Bolsa de Valores de São Paulo, apenas uma é dirigida por mulher, por exemplo.
Para que mais mulheres possam, como Dilma, pleitear a Presidência do país é preciso haver mais mulheres em ministérios, nos governos estaduais e na liderança do Congresso - e, antes disso, mais deputadas, senadoras e, claro, candidatas a esses postos. Segundo o índice de desigualdade de gênero do Fórum Econômico Mundial, o principal problema para as mulheres do Brasil é justamente a representação política. Considerando outros aspectos, além da política - como acesso à saúde, à educação e à igualdade salarial -, o Brasil está na 85ª posição entre 134 países. Olhando apenas para o número de mulheres no Congresso, o país cai para o 108º lugar no ranking.
Alguns números melhoraram - em 2006, 13% dos candidatos à Câmara eram mulheres; em 2010, 22% -, mas a participação continua baixa: cerca de 10% nas duas Casas. O número é ainda mais baixo considerando que desde 1997 vigora, no país, uma lei que prevê que pelo menos 30% das candidaturas à Câmara sejam de mulheres. Na última eleição, as legendas também não reservaram 10% de seu tempo de horário eleitoral gratuito para candidatas, como prevê a legislação. "Os partidos políticos ainda resistem a uma nova e necessária divisão do poder", afirma Lourdes Bandeira, professora de sociologia da Universidade de Brasília e subsecretária de Política para as Mulheres do Paraná. "Mesmo quando se elegem, as mulheres geralmente são marginalizadas em comissões de menos prestígio", diz Leslie Schwindt-Bayer, professora do Departamento de Ciências Políticas da Universidade de Missouri e autora do recém-lançado Political power and women's representation in Latin America (Poder político e representação feminina na América Latina, Oxford University Press).
A deputada Iriny Lopes (PT-ES), uma das 45 mulheres entre os 513 deputados da próxima legislatura, diz que é mais difícil para as mulheres fazer campanha porque as empresas costumam doar menos dinheiro para candidaturas femininas. Outra dificuldade é lidar com o ambiente predominantemente masculino do Congresso. "Certa vez, uma colega parlamentar teve uma crise epilética no plenário. Ouvi um deputado dizer: 'É um chilique!'." A presença de uma mulher era tão incomum na política que, quando a senadora Serys Slhessarenko (PT) elegeu-se deputada estadual, em 1990, o prédio da Assembleia Legislativa de Mato Grosso não tinha nem banheiro feminino.
No outro extremo, alguns políticos tratam seus pares do sexo feminino como seres frágeis. Foi com uma rosa vermelha que o presidente Lula presenteou Dilma Rousseff após uma entrevista da candidata ao Jornal Nacional. "Eu esperava, pelo fato de você ser mulher e candidata, que o entrevistador tivesse um pouco mais de gentileza", afirmou Lula em um comício em Belo Horizonte. Talvez Dilma não esperasse nem quisesse um tratamento diferente do dispensado aos outros candidatos. No Plenarinho de crianças na Câmara, uma menina de 10 anos, Bárbara Gabriele Hermógenes Castanho, ocupou a Mesa Diretora da Câmara - posto a que nenhuma mulher chegou entre os adultos. Ela não pensa em ser política quando crescer. "Quero ser atriz." Mas, se ela mudar de ideia, como disse Dilma Rousseff em seu discurso da vitória: sim, as mulheres podem.
Os obstáculos
Cinco barreiras que dificultam a ascensão das mulheres na política
1 - Há poucos modelos de mulheres bem-sucedidas
"Se as mulheres não veem outras ocuparem posições de poder, têm menos probabilidade do que os homens de considerar seguir a carreira na política", diz Karen Kampwirth, professora de ciência política do Knox College, em Illinois. Daí a importância simbólica da vitória de Dilma Rousseff
2 - Mulheres no poder são muito fortes ou muito fracas
Se uma mulher chora, é fraca; se é firme, é mandona. Para Ilene Lang, presidente da organização feminista Catalyst, exige-se das mulheres um comportamento ideal que não é cobrado dos homens. "Ou elas são muito fracas ou muito duronas. Parece que nunca estão certas"
3 - Simpatia e competência são incompatíveis?
Segundo Ilene, uma das principais barreiras para a ascensão das mulheres é a percepção de que, para ser competente na liderança, uma mulher não pode ser amada. É provável que essa seja a explicação para "damas de ferro", como as ex-primeiras-ministras Margaret Thatcher, do Reino Unido, e Golda Meir, de Israel, na política mundial
4 - A máquina dos partidos é controlada por homens
Embora exista desde 1997 a Lei do Batom, que estabelece uma cota de 30% de candidaturas femininas à Câmara, nas últimas eleições só 22% dos candidatos eram mulheres. "A estrutura político-partidária continua sendo muito restrita, com escasso acesso das mulheres", diz Lourdes Bandeira, professora de sociologia da UnB
5 - Mulheres são avaliadas com maior rigor
Estudos em empresas revelam que as mulheres precisam mostrar resultados melhores, por mais tempo e com mais frequência do que os homens para subir. Na política, esse rigor se traduz em críticas que não são feitas aos homens. Se Dilma fosse um homem, haveria a mesma ênfase na falta de mérito pessoal e biografia do presidente eleito?
 

Valeu à pena sermos "desaforadas"!

Iáris Ramalho Cortês
Em março de 2005 o Editorial do Jornal Fêmea, escrito por mim, estava cheio de revolta diante do conselho que o presidente Lula deu a nós mulheres, no dia Internacional da Mulher, para que não fossemos "desaforadas" e não começássemos a "pensar na Presidência da República".
Na matéria fiz uma retrospectiva dos nossos "desaforos" e encontrei a resposta na nossa luta para conseguir votar e ser votada, para entrarmos no mercado de trabalho, para termos 120 dias de licença maternidade, para deixarmos de ser "colaboradoras" e "com-sorte" do marido, pala lutar pelas cotas de mulheres na política e muitas outras reivindicações.
Apontei o porquê de precisarmos continuar sendo "desaforadas" para conseguirmos ganhar o mesmo salário dos homens para um mesmo tipo de trabalho, para deixar de sermos violentadas, assediadas, maltratadas, estupradas. Que precisamos continuar a ser "desaforada" para que a sociedade entenda que nossos corpos nos pertencem, que nossos úteros são parte de nós, que nós é que temos que decidir se e quando termos nossos filhos.
Cinco anos se passaram e o conselho do Presidente parece ter fermentado o íntimo das mulheres brasileiras e uma delas se colocou para enfrentar, com "desaforo" a feroz batalha contra magos da política nacional.
É verdade que aquele que há cinco anos pediu para que a mulher brasileira "não fosse desaforada para pensar na Presidência da República", como que, medindo e pesando aquelas palavras, agora resolveu se redimir e apostar em uma mulher e apostou com todas as forças de seu poder presidencial.
Temos uma mulher eleita para Presidenta da República Federativa do Brasil e, como mulher que sonhava ver outra mulher na presidência, me dou o direito de dizer o que penso para não vê-la decepcionando as mulheres, pois afinal, também sou "desaforada". E pergunto:
E agora Maria?
Escutei atentamente seu pronunciamento de vitória. Você nunca se intitulou "feminista", mas, pelo seu histórico de vida sei que é uma guerreira e toda guerreira tem um pouco de feminismo, mesmo sem saber. Gostei do que falou das mulheres (aconselho um pequeno estagio na SPM para conhecer mais as diversidades de mulheres brasileiras – a brasileira não é a mulher e sim as mulheres).
Você vai ter que ser muito "desaforada" para enfrentar o que lhe espera. Vai precisar ser "desaforada" quando for escolher sua equipe (os gorgulhos do Poder estão de olhos nos cargos) que, esperamos, tenha um razoável numero de mulheres.
Vai ter que ser mais "desaforada" ainda, quando tiver que limpar a Corte Palaciana dos corruptos, fichas sujas, aproveitadores etc.
E quando tiver que decidir sobre o orçamento público aí sim seu "desaforo" deve ser implacável do contrário não erradicará a miséria.
O desenvolvimento econômico jamais deverá sobrepujar o desenvolvimento humano e para isto você vai ter que ser, mais uma vez "desaforada".
E como você vai fazer para separar a religião da política sem ter que ser "desaforada" com os fundamentalistas de plantão?
Há cinco anos disse que além de "desaforadas" precisávamos ser mais apressadas para conseguirmos uma igualdade democrática, uma melhor distribuição das riquezas, maiores oportunidade de trabalho para homens e mulheres, repartição das tarefas domésticas para o cuidado com crianças, familiares idosos, pessoas com deficiência e doentes; políticas públicas realmente implementadas, com equipamentos sociais como creches, lavanderias e refeitórios públicos.
Muito disso só será concretizado se a educação do país incluir estas questões, sem discriminações, sem tabus, sem covardia, desde o ensino fundamental. É outro "desaforo" que terá que enfrentar.
Enfim, desejo que seja "desaforada" e "atrevida", só assim marcará este país com sua passagem.
E, como há cinco anos, trago a mesma frase de Fernando Pessoa: "Tudo parece ousado para quem nada se atreve".
Iáris Ramalho Cortês – sócia do CFEMEA
Brasília, 01 de novembro de 2010
Fonte : Universidade Livre Feminista

Vídeo - Pode a Etica e a Cidadania ser ensinadas?




Fonte: IPTV USP

 "O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons." - Martin Luther King

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Baixe o Livro Gênero, Feminismos e Ditaduras no Cone Sul

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Fonte: Mulheres em Movimento mudam o mundo

Viva as Mulheres!


 Viva as mulheres que trabalham, se afirmam todos os dias e não têm medo de nada, nem do escuro, nem da sombra.
Viva as mulheres que nos tanques da vida lavam a roupa suja da opressão, da desigualdade e da injustiça.
Viva as mulheres que lutam pela igualdade, pelos mesmos direitos que o homem, mesmo salário e mesmas oportunidades.
Viva as mulheres guerreiras que se aventuram nos espaços mais inusitados e mostram sua capacidade com ternura e firmeza.
Viva as mulheres que se doam, não dormem por seus filhos que estão fora de casa ou no hospital, que crêem no amor e o vivem diariamente.
Viva as mulheres corajosas que enfrentam as turbulências da vida, às vezes a violência, e não se dobram, nem se curvam.
Viva as mulheres plantadoras da paz e do milho, dos frutos da humildade e da consciência cidadã. Viva as mulheres que são belas e sorridentes, cantam e encantam, mexem com os corações e a alma.
Viva as mulheres com as mãos cheias de calos e feridas pelos tombos e quedas e que não se vergam ao cansaço e às tempestades.
Viva as mulheres, e sua incansável contribuição para o futuro de um outro mundo possível.
Viva as mulheres parteiras da liberdade, da democracia e da vida.
Viva as mulheres que anunciam o novo, e o regam e o cercam de flores e perfumes.
Viva as mulheres amantes, amigas, irmãs, mães, avós que não se entregam nunca ou se entregam totalmente.
Viva as mulheres e seu olhar de fogo e luz.
Viva as mulheres agricultoras e as que trabalham nas fábricas e nos lares, nas escolas e nas creches, nos hospitais e nos ônibus, nos campos de futebol e nas universidades, nos açudes e nos palácios, nas prisões e nas igrejas, na roça e na metrópole.
Viva as mulheres que choram e riem e deixam suas lágrimas rolar livremente.
Viva as mulheres que põem a semente na terra e no ventre e a conduzem à juventude e à maturidade.
Viva as mulheres guerrilheiras da esperança, da luta incansável por tempos de solidariedade e pelo alegre convívio dos diferentes.
Viva as mulheres donas do pedaço e do nariz.
Viva as mulheres governantes que cuidam de todos e todas, manhã, tarde e noite com dedicação e felicidade.
Viva as mulheres companheiras de todos os dias e todas as horas, na dor e na alegria, no sofrimento e na vitória.
Viva as mulheres cuidadoras do amanhã e suas incertezas, do que virá e suas belezas.
Viva as mulheres sonhadoras de uma utopia onde todos e todas são iguais, onde o amor seja o centro da vida e o construir junto forme a comunidade de irmãos e irmãs.
Viva as mulheres fazendo história.
Dilma Roussef, no seu primeiro discurso como presidenta eleita, disse: ‘...é uma demonstração do avanço democrático do nosso país, porque pela primeira vez uma mulher presidirá o país. Já registro, portanto, o meu primeiro compromisso após a eleição: honrar as mulheres brasileiras para que esse fato até hoje inédito se transforme num evento natural e que ele possa se repetir e se ampliar nas empresas, nas instituições civis e nas entidades representativas de toda a nossa sociedade. A igualdade de oportunidades entre homens e mulheres é um princípio essencial da democracia. Eu gostaria muito que os pais e as mães das meninas pudessem olhar hoje nos olhos delas e dizer: ‘Sim, a mulher pode’.

Selvino Heck -  Assessor Especial do Presidente da República do Brasil. Da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Avaliando a Educação - Palestra a Ministros de Educação

Amei estas relexões e compartilho.

Ricardo Semler em palestra a Ministros de Educação no LATWF, Londres, janeiro de 2009

Parte 1

Parte 2


Fonte:

Parte 1:
http://www.youtube.com/watch?v=nkELvSqiUDw&feature=related
Parte 2:
http://www.youtube.com/watch?v=GM-lY4OufXI&feature=related

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Falando sobre a Diversidade em video

Amei este video, curtinho e ajuda a trabalhar muitas tematicas em grupos de refexão como a diversidade, as diferenças. Vejam por voces mesmas/os.

Ninguém ensina ninguém, ninguém aprende sozinho


Ninguém ensina ninguém, ninguém aprende sozinho from Nós na Tela on Vimeo.

Para recordar a plataforma politica das Mulheres - 2002

Em 2002 foi realizada, em Brasília, a I Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres. Mais de 2.000 mulheres estiveram presentes, representando movimentos de todo o país, negras, ciganas, trabalhadoras rurais, militantes feministas, um conjunto bem representativo da luta das mulheres por igualdade, justiça, contra a violência, a lesbofobia e o machismo.


Reportagens sobre a I Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres from Universidade Livre Feminista on Vimeo.




Veja tambbem este texto :

PLATAFORMA POLÍTICA FEMINISTA que descreve  a Conferência Nacional de Mulheres Brasileiras - 6 e 7 de junho de 2001 - Brasília - A Plataforma foi construída sobre uma base de mobilização de 5 mil e 200 ativistas de movimentos de mulheres, mobilizadas para o debate em 26 Conferências Estaduais, realizadas entre março e maio de 2002. Sua conclusão se fez em Brasília, dias 6 e 7 de junho de 2002, na Conferência Nacional de Mulheres Brasileiras. Ali, cerca de 2 mil mulheres tomaram contato com a 2ª Versão da Plataforma - texto que emergiu a partir da compilação e síntese dos processos estaduais. Na Conferência Nacional, esta segunda versão da Plataforma foi revisada, enriquecida, criticada, negociada e até mesmo, para alguns de seus parágrafos, votada. Novas emendas, novos capítulos e sessões foram acrescidos e, ao final, a Plataforma foi aprovada por aclamação. Clique AQUI

terça-feira, 5 de outubro de 2010

ONU quer mais atenção das autoridades aos perseguidos por orientação sexual

O objetivo do alerta é ampliar a rede de proteção e evitar violações aos direitos humanos direcionadas a lésbicas, gays, bissexuais e transexuais.
Agência Brasil
Brasília – A Agência das Nações Unidas para Refugiados (cuja sigla em inglês é Acnur) apelou às autoridades mundiais que atuem para evitar perseguições às pessoas em decorrência da orientação sexual ou identidade de gênero. Para a Acnur, é essencial que seja reconhecida a vulnerabilidade que há para essas pessoas que sofrem discriminação nos países de origem e também para onde migram.
O objetivo do alerta é ampliar a rede de proteção e evitar violações aos direitos humanos direcionadas a lésbicas, gays, bissexuais e transexuais. As informações são da própria Acnur. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, a representante do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos Navi Pillay e o Prêmio Nobel da Paz arcebispo Desmond Tutu apoiaram a campanha lançada pela Acnur.
“A cada nova etapa, esses grupos vulneráveis se deparam com perigos, dificuldades e discriminação”, disse a porta-voz da Acnur, Melissa Fleming. “As pessoas que pertencem a esses grupos são mais suscetíveis a sofrer violência sexual e de gênero tanto em seus países de origem quanto nos países onde recebem asilo”, disse ela. “Essas pessoas encontram um alto risco de discriminação em assentamentos urbanos e campos de refugiados.”
Fleming lembrou que em sete países a pena de morte é punição para pessoas que mantêm relações homoafetivas. Segundo ela, há casos de leis que criminalizam as relações entre pessoas do mesmo sexo.  “Esses tipos de leis, sejam elas executadas ou não, limitam a possibilidade das pessoas de obter proteção do Estado em seus países de origem”, afirmou.
A Acnur promove uma revisão das diretrizes e políticas para assegurar que a vulnerabilidade desses grupos seja tratada como prioridade em todos os países. Em 2008, a agência divulgou nota informando que os indivíduos perseguidos por sua orientação sexual ou identidade de gênero deveriam ser considerados em fuga por aderir a um particular grupo social. A interpretação se baseia na Convenção de 1951 sobre direitos humanos e de imigração

Fonte : D24AM

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Grandes mulheres na filosofia

Vistas no decorrer da história de modo secundário e até mesmo inferior, elas fizeram a diferença na história da filosofia.


Veja todas elas no site filosofia uol aqui

Transexualidade. 'Nós fazemos gênero no dia a dia'. Entrevista especial com Berenice Bento

Por Redação IHU

Gênero e estrutura biológica não definem o que somos e o que queremos ser. Essa é uma das questões centrais do discurso da professora Berenice Bento durante a entrevista que concedeu, por telefone, à IHU On-Line. Para ela, “discutir gênero é transitar por um conjunto de teorias e de concepções e explicações sobre o que é ser masculino e feminino”. Sua filiação teórica está ligada aos estudos queer e, por isso, ela defende que gênero não tem nada a ver com a estrutura biológica. “Discutir transexualidade nos remete a discutir identidade de gênero deslocada da biologia porque são pessoas que têm todas as genitálias normais, toda a estrutura biológica, cromossomos absolutamente normais e, no entanto, não se reconhecem no corpo. E, nesse sentido, a genitália é apenas uma das partes do corpo”, explica.

Berenice Bento é graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Goiás, mestre e doutora em Sociologia pela Universidade de Brasília. Atualmente, é professora na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde pesquisa a relação entre os seguintes temas: direitos humanos, transexualidade, gênero e teoria queer. É autora de O que é transexualidade (São Paulo: Brasiliense - Coleção Primeiros Passos, 2008) e A (re) invenção do corpo: sexualidade e gênero na experiência transexual (Rio de Janeiro: Garamond, 2006).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o significado do gênero se articula com o corpo?


Berenice Bento – Discutir gênero é transitar por um conjunto de teorias e de concepções e explicações sobre o que é ser masculino e feminino. Eu tenho uma filiação teórica que é vinculada aos estudos queer que fala que o gênero, a masculinidade e a feminilidade não têm nada a ver com a estrutura biológica. Portanto, não tem a ver com a presença ou ausência de determinadas genitálias, determinadas características sexuais secundárias. Gênero está relacionado à performance, à prática e ao reconhecimento social. Para que eu seja reconhecida socialmente como uma mulher, preciso desempenhar um conjunto de práticas, de performances que possibilitam esse reconhecimento. Neste sentido, a roupa que eu uso, o jeito que posiciono minha mão, a maneira como cruzo as pernas, são esses indicadores e visibilidades de gênero que fazem o gênero. Não existe gênero em uma estrutura corpórea, existe na prática. Nós fazemos gênero no dia a dia.

IHU On-Line – Como pode ser descrito o dispositivo da transexualidade?

Berenice Bento – Esse conceito de transexualidade abordado no meu livro A reinvenção do corpo, foi produzido a partir da minha tese de doutorado. Nele, obviamente, dialoguei com Michel Foucault, autor que trabalha a ideia de um dispositivo da sexualidade que significa mecanismos discursivos que produzem a verdade sobre o que é ser transexual. Sobre o que é esse dispositivo da transexualidade, localizo dois tipos de discursos: o da psicanálise e, principalmente, o da endocrinologia, que trabalha a questão dos hormônios. Esses dois discursos vão dizer que uma pessoa transexual é aquela que odeia sua genitália e demanda desesperadamente uma cirurgia de transgenitação como condição para desempenhar com sucesso a sua heterossexualidade.

Eu defendo que a transexualidade não tem absolutamente nada a ver com a sexualidade.  Algumas pessoas transexuais querem fazer a cirurgia, outras não querem. Mas existe uma questão central que unifica o discurso das pessoas transexuais: a luta pelo reconhecimento e pela mudança dos documentos. Muitas pessoas dizem que a genitália não é o problema, o problema é quando não tenho os documentos que me reconheçam, por exemplo, a Roberta Close tinha que mostrar, por muito tempo, um documento que dizia que ela era Roberto Grambini. As pessoas não entendiam. Roberta Close tinha que ficar explicando que o documento estava incorreto.

Cada pessoa transexual vai vivenciar a sua sexualidade de formas muito diferentes, todas as pessoas transexuais não são heterossexuais, não são bissexuais, gays ou lésbicas. Existe uma pluralidade de vivências da sexualidade na transexualidade, existe uma luta pelo reconhecimento de um outro gênero. Discutir transexualidade nos remete a discutir a identidade de gênero deslocada da biologia, porque são pessoas que têm todas as genitálias normais, toda a estrutura biológica, cromossomos absolutamente normais e, no entanto, não se reconhecem no corpo. E, nesse sentido, a genitália é apenas uma das partes do corpo. Muitos mudam o corpo, colocam silicone, fazem aplicação a laser para tirar as marcas da barba, deixam o cabelo crescer, se constitui e produz as expressões do gênero feminino, luta socialmente para ser reconhecida como mulher. Então, o dispositivo da transexualidade, que produz uma única explicação para o ser, para viver a transexualidade na pesquisa que eu fiz, não encontra nenhum tipo de respaldo.

IHU On-Line – A senhora fala que “todos já nascemos cirurgiados”. O que isso significa?

Berenice Bento – Quando você nasce já existe um conjunto de expectativas para um corpo que está na barriga da mulher, inclusive a grande expectativa em torno do sexo. Você vê aquelas máquinas passando lá (ultrassom) e os médicos dizem coisas como “é uma bebê”. No momento em que o médico diz as “palavras mágicas”, é como se tivesse o dom de criar a criança. Aquela frase “parabéns mamãe você vai ter uma menina”, “parabéns mamãe você vai ter um menino”, desencadeia um conjunto de expectativas materializadas em cores e brinquedos. Quando essa criança nasce, ela não é um corpo, uma natureza, um conjunto de células, mas sim um corpo generificado, cirurgiado no sentido de que já há uma cultura de expectativas por aquele corpo, ele não está livre dos imperativos.

A criança, quando nasce, se tem uma vagina, vai usar a cor rosa, vai ter um conjunto de imperativos apontando como a criança deve se comportar. Então, você tem uma produção em série de brinquedos, discursos, religiões sobre uma feminilidade ou uma masculinidade inteligível. É uma cirurgia discursiva, porque o médico que diz “você tem uma menina”, está escrevendo uma gramática de gênero, em um léxico social que já está fadado. O que eu afirmo é que não tem nada a ver com biologia ou natureza. Como é possível alguém falar de biologia quando nós pensamos em todos ensinamentos, toda a repressão, todos os dispositivos, todas as instituições dizendo o que é de menina e o que é de menino? Se fosse da ordem da natureza, não precisaria disto. Eu nasceria e iria crescer e eleger naturalmente. Porém, eu não elejo, eu sou eleita.

IHU On-Line – Qual é o sentido em se falar de sexo feminino e masculino quando já se fala no transgênero?


Berenice Bento – O transgênero, a transexualidade, a transvestilidade, drag queens, são expressões de gênero que disputam com a concepção hegemônica. Na verdade, o que você tem hegemonicamente é aquela ideia de uma continuidade. Você tem uma vagina, logo você é mulher, logo você é feminina e é óbvio que você é heterossexual. Você tem um pênis, logo é homem, é masculino e logo é heterossexual. É esta a estrutura hegemônica do gênero que é problemática. O tempo inteiro nós estamos vendo expressões de gênero, vivências de gênero que explodem essa coisa retilínea com uma correspondência entre desejo e genitália afetada na heterossexualidade. Tanto as ciências quanto a religião, hegemonicamente falando, ainda trabalham com essa ideia de binarismo e tudo que foge disto é da ordem do anormal, do pecaminoso, do não inteligível, do que não tem nome.

IHU On-Line – E como a senhora vê a experiência do Processo Transexualizador, instituído pelo Sistema Único de Saúde - SUS?

Berenice Bento – Foi uma luta longa dos movimentos sociais, incluindo teóricos, ativistas, que reivindicavam que o SUS pagasse essa a cirurgia, porque é uma cirurgia que para algumas pessoas é essencial. A cirurgia é financiada, mas a questão da autonomia do sujeito não é discutida. Ainda hoje as pessoas que queiram fazer essa cirurgia precisem se submeter a protocolos, quando entram para fazer a cirurgia, já estão em desvantagem. Chamo de cidadania cirúrgica ou cidadania precária, porque ele tem que estar durante dois ou três anos se submetendo a burocracias de sessões de psicologia, exames rotineiros para, ao final deste processo, saber se aquilo que ele quer ele só pode fazer se tiver um laudo de transexualidade. Sem dúvida, isso é importante, mas a cirurgia tem que vir como um reconhecimento pleno da condição de sujeito das pessoas transexuais de decidir sobre as alterações corporais de seu corpo.

IHU On-Line – A partir disso, como a senhora avalia a relação entre a transexualidade e a bioética?

Berenice Bento – A questão da ética da vida, pensando os discursos que produzem sentido para a vida sobre os quais a bioética se debruça, é o respeito à autonomia do sujeito. Precisamos pensar no que significam as dores do sujeito, seu sofrimento. Eles têm capacidade de decidir sobre o que querem sobre seus corpos e suas vidas. Eles não precisam ser tutelados pelo Estado. É preciso mudar o foco de uma concepção autoritária, pois hoje o transexual precisa de autorização de toda uma equipe médica e o processo é bastante complicado, e depois disso ele pode fazer a cirurgia. É preciso ter foco na condição plena desse sujeito. Além disso, no Brasil ainda se exige que, para se alterar o documento, é preciso fazer a cirurgia. Isso é absurdo. Porque mesmo com a cirurgia, se leva anos para conseguir mudar os documentos. Em outros países os processos são desvinculados um do outro. Com um parecer de que você é transexual, pode-se ir a qualquer cartório e modificar seu nome e, assim, você passa a viver com todos os direitos e deveres do outro gênero.

(Envolverde/IHU - Instituto Humanitas Unisinos)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Os complexos dilemas femininos

POR RAFAEL CAMPOS - revista de domingo do jornal Correio Braziliense
Violência doméstica, aborto e participação política são alguns dos temas recorrentes em cada campanha eleitoral. A uma semana das eleições, Dilma Rousseff e Marina Silva falam sobre eles


A partir de 1º de janeiro de 2011, o Brasil entrará em uma nova fase. Independentemente de quem saia vencedor nas urnas, os 16 últimos anos tornaram o país, dentro das limitações políticas, mais democrático. Com esse avanço, os direitos da mulher tornam-se, cada vez mais, aspectos dependentes de políticas públicas, em vez de apenas tópicos defendidos por movimentos sociais. Sobretudo, diante da situação em que o país se encontra em relação a seus pares na América Latina.
De acordo com o ISO-Quito, índice que mede a igualdade das mulheres nos países latino-americanos, entre os 16 avaliados, o Brasil ocupa o 15º lugar, superando apenas a Guatemala. O índice leva em conta aspectos políticos, em relação à paridade nas decisões governamentais; econômicos, que considera as diferenças trabalhistas; e sociais, que remetem ao bem-estar da mulher. O cálculo é feito tendo como base compromissos assumidos pelos países da região durante a Conferência Regional da Mulher, realizada em 2007, em Quito, no Equador.
A Revista ouviu mulheres de diversos setores da sociedade, inclusive de entidades organizadas, para saber quais são as grandes questões femininas e quais demandam políticas públicas mais imediatas. As principais são aborto, participação política e na administração pública, e violência doméstica. As candidatas Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PV) se pronunciaram sobre os temas. Até o fechamento da edição, o candidato José Serra (PSDB) não respondeu às perguntas enviadas 10 de agosto.


Participação política
De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 52% dos eleitores aptos a votar em 2010 são mulheres. Apesar dessa maioria, a realidade dos partidos é outra: a subrepresentação feminina nas esferas do poder ainda é um entrave para que suas bandeiras tenham maior visibilidade. A dificuldade em conseguir o mínimo de 30% de participação feminina nas coligações partidárias, como exige a Lei Eleitoral, dá, segundo os movimentos feministas, uma ideia errada sobre o desejo delas em fazer parte do universo político.
Para Fernanda Feitosa, cientista política do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea), o suposto desinteresse feminino em política é alardeado apenas pelo senso comum. “A verdade é outra. Vemos nas bases dos partidos que são elas quem mais trabalham: nas associações de bairros, reuniões de pais e mestres das escolas públicas. As mulheres fazem política no dia a dia”, garante. Para que elas apareçam mais em cargos públicos, sugere Fernanda, deve haver um maior investimento na formação política. “O governo tem que dar oportunidades para que elas cheguem aos cargos de decisão. Até porque trabalhamos com a ideia de que a política é um processo pedagógico, que você aprende fazendo, como dizia Russeau.”
Outra limitação em relação à ocupação de cargos eletivos é o fato de que isso implicaria numa terceira jornada de trabalho, já que a estrutura de gestão do lar ainda ficaria a cargo delas. “Você pode até ver que a maioria dos parlamentares homens são casados. Entre as mulheres, a maioria é solteira, separada ou viúva. A mulher não vai ter a retaguarda do marido. Se ela se lança, além de vencer todos esses obstáculos da candidatura, ainda terá de lutar contra os que aparecem em casa”, explica.

Trabalho comunitário
Suely Santana da Cruz - (Valério Ayres ESp. CB/D.A.Press)
Suely Santana da Cruz

A administradora hospitalar Suely Santana da Cruz, 37 anos, fala com orgulho do jardim localizado em sua quadra, no Gama. Ele foi construído graças aos esforços dela e de outras moradoras. Esse é um exemplo da tal política do dia a dia. Para Suely, a participação das mulheres nas áreas administrativas é imprescindível. Não só por conta da sensibilidade com relação aos problemas da comunidade, mas para demonstrar uma maior competitividade delas em relação aos homens. “Os homens tem muito mais oportunidades e vantagens que as mulheres. Principalmente em questões salariais. Nós fazemos um trabalho mais detalhado, mais bem feito. É preciso visão igual para todos, sem distinção de sexo.” Ela lembra ainda que a administração local também deve estimular a participação feminina, pois ela acredita que tudo começa na comunidade. “Isso é algo que deve ser trabalhado no próximo governo: se os novos governantes puderem fazer essa mudança, de estimular as mulheres a participarem, elas vão se destacar em projetos que não podem fazer sozinhas mas que, juntas da comunidade, podem mudar a realidade.”

Um efeito colateral
Denize Formiga Menezes Castro - (Valério Ayres ESp. CB/D.A.Press)
Denize Formiga Menezes Castro

Para os movimentos sociais, a pequena participação da mulher na esfera política está diretamente ligada à sua dupla jornada de trabalho. O Comunicado Mulheres e trabalhos: avanços e continuidades, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em 2010, concluiu que a desigualdade entre homens e mulheres no mercado ainda está intimamente ligada à responsabilidade delas pelos trabalhos domésticos.
A professora Denize Formiga Menezes Castro, 46 anos, acredita que essa exigência social de arcar com os afazeres da casa atrapalha, inclusive, a educação dos filhos. “A mulher que trabalha o dia todo tem que deixar os filhos sozinhos. Ao chegar, vai lavar roupas, cuidar da casa. Isso não deixa que ela dê uma atenção escolar para o filho, porque não sobra tempo.”
Sílvia Camurça, educadora do Instituto Feminino para a Democracia – SOS Corpo, defende o aumento do número de creches e escolas em tempo integral, garantindo para a mulher espaços de cuidados dos filhos e, consequentemente, o tempo necessário para que ela possa cuidar da própria carreira. “Essa política também faria avançar a democracia participativa das mulheres, fortalecendo, inclusive, os conselhos de participação popular, para que os governos não fiquem reféns das alianças eleitorais.” Sílvia afirma que esse direcionamento poderia ajudar na maior democratização do Estado que, de acordo com ela, não está acostumado à participação popular.
Para a cientista política Fernanda Feitosa, o Estado deve oferecer equipamentos sociais e urbanos, como creches, escolas de tempo integral, lavanderias, etc., para que as tarefas domésticas possam ser divididas igualmente.

Violência doméstica
Shirley de Fátima Dias Pereira - (Valério Ayres ESp. CB/D.A.Press)
Shirley de Fátima Dias Pereira
A cobertura intensa da mídia ao caso Eliza Samúdio, ex-namorada do goleiro Bruno, no Flamengo, deu ainda mais evidência à importância do combate à violência contra a mulher, que já havia recebido mais destaque desde a sanção da lei Maria da Penha. De acordo com pesquisa realizada pelo Centro pelo Direito à Moradia contra Despejos (Cohre), uma em cada quatro mulheres no Brasil apanha. Para Maria José Rosado, coordenadora geral do movimento Católicas pelo Direito de Decidir, a proposição da Lei Maria da Penha já deve ser considerado um avanço. “Por meio dela, a sociedade começou, de fato, a discutir a violência contra a mulher.”
Para as entrevistadas, o novo presidente da República precisa trabalhar para que não existam alterações na Lei Maria da Penha que diminuam seu rigor. “No parlamento, estamos acompanhando muitos projetos que descaracterizam a Lei Maria da Penha. Por vivermos em uma sociedade patriarcal, é a Lei que cumpre o papel do Estado em tutelar o elo mais fraco, que na violência doméstica é a mulher. Por uma questão de força física e dependência emocional”, afirma Fernanda Feitosa. Uma das grandes reclamações das mulheres é que as delegacias das mulheres não conseguem dar o apoio necessário.
A enfermeira Shirley de Fátima Dias Pereira, 35 anos, diz que falta um trabalho para as que procuram ajuda que vá além da denúncia. “Muitas vão denunciar e não são totalmente acolhidas. Elas tinham que receber acompanhamento psicológico, um apoio à segurança, que muitas vezes tem falhado para ela, que já vive com medo.” Shirley afirma que é preciso uma tutela maior do Estado com os casos mais extremos, especialmente em ajuda financeira. “Muitas não denunciam porque ficam com medo de não ter o que fazer, porque vivem dependentes do marido e voltam para a casa e apanham de novo.”

Aborto
A mais polêmica das lutas femininas também é que a mais rende comentários dispersos dos candidatos. O aborto legal é uma bandeira de luta constante entre os que defendem os direitos da mulher. Os movimentos sociais acreditam em avanços nas discussões do tema durante o mandato do atual presidente. Porém, não foram suficientes. Para Maria José Rosado, do grupo Católicas pelo Direito de Decidir, a comissão tripartite, criada em 2005 e formada por representantes dos poderes Legislativo, Executivo e da sociedade civil, conseguiu propor a primeira revisão da legislação brasileira sobre o aborto. Entretanto, tudo ficou nas proposições.
“O mesmo governo não levou adiante. A comissão deveria terminar com uma legislação que liberasse o acesso das mulheres ao aborto como um direito à cidadania”, afirma. De acordo com o anteprojeto, a descriminalização do aborto aconteceria até a 12ª semana de gestação e, caso a gravidez implique em risco de morte ou malformação fetal, em qualquer momento dela. A mudança na lei, contudo, terá de acompanhar uma mudança no pensamento.
Para Maria José, a providência inicial do novo presidente deveria ser a desvinculação total de relações com setores religiosos nas decisões que envolvam a saúde sexual das mulheres. “O governo deve ser fiel ao princípio constitucional, não vivemos em um estado teocrático. Isso, para nós mulheres e para a discussão do aborto, é fundamental.” Fernanda Feitosa é taxativa. Para ela, o aborto legal não é um direito que deva existir sozinho. Como forma de política pública, o Governo Federal deve dar atenção à saúde integral da mulher. “Com educação sexual, para prevenir a gravidez indesejada, com o planejamento familiar como política de Estado e o aborto legal para que as mulheres não morram.”

O que dizem as candidatas

Dilma Roussef, do PT
 - (Iano Andrade CB/D.A.Press)

Aborto
“Não acredito que alguma mulher seja favorável ao aborto. É uma situação a que as mulheres recorrem no desespero. Entendo que a legislação atual, que prevê o recurso ao aborto em situações específicas de estupro e de risco à vida da mulher, deve ser mantida. Agora, acho que o Brasil tem de ter uma política de saúde pública para atendimento e assistência às mulheres.”

Violência doméstica
“A Lei Maria da Penha foi uma grande vitória das mulheres. Com a sua aprovação, em 2006, e com a implementação do Pacto Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, demos passos muito importantes. Para se ter uma ideia, de 2003 a maio deste ano, triplicamos a rede de serviços de atendimento às mulheres vítimas de violência. De 2007 a 2010, investimos mais de R$ 13 milhões na capacitação de agentes públicos que trabalham no atendimento às vítimas. Somamos mais de um milhão de atendimentos no Ligue 180. No entanto, ainda há muito a fazer, mas acredito que a maior vitória deste período foi ter colocado o fenômeno da violência contra a mulher na agenda da gestão pública do Estado brasileiro e no debate da sociedade.”

Participação na política e na administração pública
“No governo Lula, nos empenhamos para promover mais autonomia e mais cidadania para as brasileiras. Desenvolvemos políticas públicas específicas para enfrentar problemas que incidem mais sobre as mulheres, como a violência, doenças específicas e a desigualdade no ambiente de trabalho. Além disso, em muitos programas e ações do governo, demos especial atenção à mulher, como é o caso do Bolsa Família, em que a mulher é a titular preferencial dos benefícios, ou o Minha Casa Minha Vida, em que os títulos de propriedade são emitidos em nome da mulher. No meu governo, se eleita, continuaremos a implementar políticas que promovam a autonomia econômica e financeira das mulheres. No caso das mulheres trabalhadoras com filhos, por exemplo, a construção de creches é um programa muito importante. Também vou continuar apoiando a implementação do II Plano Nacional de Políticas para as Mulheres.”

Marina Silva, do PV
 - (Daniel Ferreira CB/D.A.Press)

Aborto
“O debate não deve ser reduzido a quem é contra ou a favor. As mulheres que optam pelo aborto passam por um momento de sofrimento, de dor, de desamparo. As consequências emocionais, psíquicas e familiares são dramáticas para a pessoa, que serão levadas para toda a vida. Convivi com amigas e pessoas que fizeram e pude acompanhar o sofrimento delas. Eu não faria um aborto, no entanto, nunca as julguei ou as acusei. Penso que o tema não pode ser tratado subtraindo aspectos complexos dessa decisão. No processo, estão questões de ordens filosóficas, moral, ética e espiritual. O debate ainda não foi feito com a devida profundidade, por isso proponho um plebiscito para que a discussão seja feita e ampliada.”

Violência doméstica
“A Lei Maria da Penha é um marco, mas ainda é preciso avançar, em relação à implementação dos princípios da legislação. São 300 mulheres agredidas por dia dentro de suas casas (62 mil agressões), e 68,1% dos casos de violência contra a mulher é presenciada pelos filhos, 72,1% vivem com o agressor. Nossas propostas: Disque Denúncia acessível em todo o território e articulado com a rede de atendimento à mulher; trabalhar junto com municípios e estados para ampliar a rede de atendimento, com as delegacias, juizados, centros e convivência, abrigos (menos de 3% dos municípios brasileiros têm abrigos. Os juizados ainda não existem em várias cidades do Norte e Nordeste); assistência às famílias e às crianças; humanização no cuidado das vítimas; política de drogas e combate ao crack.”

Participação na política e na administração pública
“A posição e o papel da mulher têm um impacto decisivo na formação das famílias. As mulheres são hoje 51% da população brasileira, e 43,7% da população economicamente ativa do país. O investimento na mulher beneficia toda a família, quando se investe na saúde, na educação e na geração de renda das mulheres, as crianças são mais saudáveis e passam a ter melhor rendimento escolar. Incentivar, entre outras coisas, a participação das mulheres na política. Apesar da lei existir, poucos são os partidos que cumprem com a cota de 30% de mulheres. A liderança feminina para lidar com a multiplicidade e complexidade de desafios do século 21: capacidade de negociação e de se colocar no lugar do outro; ser capaz de, em co-autoria, construir um mundo melhor; pró-atividade; convencer do que ganhar pela força.”
Fonte: Correio Brasiliense e Universidade Livre Feminista

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Sua Vida Sua Responsabilidade é o tema do Dia Mundial da Prevenção da Gravidez na Adolescência para 2010

Dia 26 de Setembro : Dia Mundial da Prevenção da Gravidez na Adolescência.

No mundo, um terço das 205 milhões de gravidezes ocorridas a cada ano não são planejadas. No Brasil, 15,9 anos é a idade média da população feminina para a ocorrência de gravidez, segundo pesquisa do Ministério da Saúde. 


Clique aqui e leia a notícia na íntegra  


Mais informações nos sites www.vivasuavida.com.br, http://www.bayerscheringpharma.com.br/Site/bayerscheringpharma/noticias/visualizador.fss?documentoId=22844d95-210f-4ebc-8b6b-c150ba23d779, www.your-life.com, www.celsam.org e www.programa-ato.com.br.

Palestra em Vídeo sobre A fragilidade do tesão – Flavio Gikovate

Por mais que nossa sociedade proclame a importância do desejo sexual, ela sente o tesão como vulnerável, sucumbindo rapidamente à rotina. Pior ainda quando, além da rotina, sentimos medo das crises. Como, então, preservar esse sentimento-sensação precioso contra ameaças internas e externas? Podemos manter acesa a chama do erotismo, mesmo em tempos adversos?Com Flavio Gikovate. Veja o video Café filosófico no site da CPFL clicando aqui

Flávio Gikovate é médico, formado pela Universidade de São Paulo (USP), no ano de 1966. Desde 1967 trabalha como psicoterapeuta, dedicando-se principalmente às técnicas breves de psicoterapia. Em 1970 foi Assistente Clínico no Institute of Psychiatry, da Universidade de Londres. É autor de 24 livros sobre os aspectos principais dos conflitos íntimos das pessoas normais, especialmente os relacionados com a vida afetiva e sexual. Suas mais recentes obras são No divã do Gikovate (Globo, 2009), Nós, os humanos (MG Editores, 2009) e Namoro: conhecendo as razões do coração (Moderna Editora, 2009)

Fonte: Café Filosófico CPFL

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Dançar para mudar o mundo

No TEDIndia, Mallika Sarabhai, dançarina/atriz/política, conta uma estória da dança que transforma - e afirma que as artes são o modo mais poderoso de efetuar mudanças, sejam elas políticas, sociais ou pessoais.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Repulsa ao sexo

 
Entre os três candidatos à Presidência mais bem colocados nas pesquisas, não sabemos a verdadeira posição de Dilma e de Serra. Declaram-se contrários para não mexer num vespeiro que pode lhes custar votos. Marina, evangélica, talvez diga a verdade. Sua posição é tão conservadora nesse aspecto quanto em relação às pesquisas com transgênicos ou células-tronco.
Mas o debate sobre a descriminalização do aborto não pode ser pautado pela corrida eleitoral. Algumas considerações desinteressadas são necessárias, ainda que dolorosas. A começar pelo óbvio: não se trata de ser a favor do aborto. Ninguém é. O aborto é sempre a última saída para uma gravidez indesejada. Não é política de controle de natalidade. Não é curtição de adolescentes irresponsáveis, embora algumas vezes possa resultar disso. É uma escolha dramática para a mulher que engravida e se vê sem condições, psíquicas ou materiais, de assumir a maternidade. Se nenhuma mulher passa impune por uma decisão dessas, a culpa e a dor que ela sente com certeza são agravadas pela criminalização do procedimento. O tom acusador dos que se opõem à legalização impede que a sociedade brasileira crie alternativas éticas para que os casais possam ponderar melhor antes, e conviver depois, da decisão de interromper uma gestação indesejada ou impossível de ser levada a termo.
Além da perda à qual mulher nenhuma é indiferente, além do luto inevitável, as jovens grávidas que pensam em abortar são levadas a arcar com a pesada acusação de assassinato. O drama da gravidez indesejada é agravado pela ilegalidade, a maldade dos moralistas e a incompreensão geral. Ora, as razões que as levam a cogitar, ou praticar, um aborto, raramente são levianas. São situações de abandono por parte de um namorado, marido ou amante, que às vezes desaparecem sem nem saber que a moça engravidou. Situações de pobreza e falta de perspectivas para constituir uma família ou aumentar ainda mais a prole já numerosa. O debate envolve políticas de saúde pública para as classes pobres. Da classe média para cima, as moças pagam caro para abortar em clínicas particulares, sem que seu drama seja discutido pelo padre e o juiz nas páginas dos jornais.
O ponto, então, não é ser a favor do aborto. É ser contra sua criminalização. Por pressões da CNBB, o ministro Paulo Vannuchi precisou excluir o direito ao aborto do recente Plano Nacional de Direitos Humanos. Mas mesmo entre católicos não há pleno consenso. O corajoso grupo das "Católicas pelo direito de decidir" reflete e discute a sério as questões éticas que o aborto envolve.
O argumento da Igreja é a defesa intransigente da vida humana. Pois bem: ninguém nega que o feto, desde a concepção, seja uma forma de vida. Mas a partir de quantos meses passa a ser considerado uma vida humana? Se não existe um critério científico decisivo, sugiro que examinemos as práticas correntes nas sociedades modernas. Afinal, o conceito de humano mudou muitas vezes ao longo da história. Data de 1537 a bula papal que declarava que os índios do Novo Continente eram humanos, não bestas; o debate, que versava sobre o direito a escravizar-se índios e negros, estendeu-se até o século 17.
A modernidade ampliou enormemente os direitos da vida humana, ao declarar que todos devem ter as mesmas chances e os mesmos direitos de pertencer à comunidade desigual, mas universal, dos homens. No entanto, as práticas que confirmam o direito a ser reconhecido como humano nunca incluíram o feto. Sua humanidade não tem sido contemplada por nenhum dos rituais simbólicos que identificam a vida biológica à espécie. Vejamos: os fetos perdidos por abortos espontâneos não são batizados. A Igreja não exige isso. Também não são enterrados. Sua curta existência não é imortalizada numa sepultura - modo como quase todas as culturas humanas atestam a passagem de seus semelhantes pelo reino desse mundo. Os fetos não são incluídos em nenhum dos rituais, religiosos ou leigos, que registram a existência de mais uma vida humana entre os vivos.
A ambiguidade da Igreja que se diz defensora da vida se revela na condenação ao uso da camisinha mesmo diante do risco de contágio pelo HIV, que ainda mata milhões de pessoas no mundo. A África, último continente de maioria católica, paupérrimo (et pour cause...), tem 60% de sua população infectada pelo HIV. O que diz o papa? Que não façam sexo. A favor da vida e contra o sexo - pena de morte para os pecadores contaminados.
Ou talvez esta não seja uma condenação ao sexo: só à recente liberdade sexual das mulheres. Enquanto a dupla moral favoreceu a libertinagem dos bons cavalheiros cristãos, tudo bem. Mas a liberdade sexual das mulheres, pior, das mães - este é o ponto! - é inadmissível. Em mais de um debate público escutei o argumento de conservadores linha-dura, de que a mulher que faz sexo sem planejar filhos tem que aguentar as consequências. Eis a face cruel da criminalização do aborto: trata-se de fazer, do filho, o castigo da mãe pecadora. Cai a máscara que escondia a repulsa ao sexo: não se está brigando em defesa da vida, ou da criança (que, em caso de fetos com malformações graves, não chegarão a viver poucas semanas). A obrigação de levar a termo a gravidez indesejada não é mais que um modo de castigar a mulher que desnaturalizou o sexo, ao separar seu prazer sexual da missão de procriar.

Fonte: Estadão